UMA VISÃO TEOFÂNICA DO UNIVERSO*


Rubens C. Romanelli

Meus caríssimos paraninfados,

No momento em que a colenda Congregação da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais aqui se reúne, em Sessão Magna, prestigiada pela presença ilustre do Magnífico Reitor, Sr. Prof. Dr. Aluísio Pimenta, e de vossos familiares e amigos, para o fim especial de conferir-vos solenemente o grau de licenciatura, não posso ocultar meu regozijo, que se identifica com o de vossos dedicados pais, nem silenciar minha gratidão, que se confunde com a de vossos preclaros homenageados.

A DESCRENÇA DOS MOÇOS

Ao receber de vosso generoso coração a honrosa incumbência de paraninfar este ato, em cujo ritual o profano ainda cede lugar ao sagrado, prometi-me a mim mesmo que minha palavra, singela embora, haveria de constituir-se em mensagem de fé ao vosso ânimo de moços, nesta hora de amarga decadência. Hora grave e triste é esta, porque hora em que as sombras de uma terrível noite, povoada de sinistras visões, começam a descer sobre a alma humana que, exausta e abatida, já nem sequer pode nutrir a esperança de que logo mais chegará a aurora. A mocidade, legatária, em todas as épocas, dos dons divinos da renovação, começa a descrer dos valores imponderáveis do espírito. Foge-lhe a fé em quase tudo, eis que já não vê por que, nem para que há de lutar. Mal egressa de uma guerra, que lhe deu a convicção da profunda instabilidade dos empreendimentos humanos e da completa falência do direito internacional, entende ela que já não deve crer em nada, nem sequer em seus pais, em seus mestres, em seus dirigentes, em seu Deus, em seu próprio destino!

Pior do que o impacto de mil bombas é o efeito dessa lenta anestesia da consciência moça, que assim se torna cada vez mais insensível aos apelos das forças construtivas do bem. Eis aí, sem exagêro, a maior tragédia de quantas se abateram sobre a face da terra, em quarenta séculos de civilização! A ameaça, agora, já não é apenas à sobrevivência do corpo, mas - o que é mais grave - à própria sobrevivência do espírito!

DESORDEM NO PARTICULAR, HARMONIA NO GERAL

Vistos isoladamente os fatos, isto é, fora do contexto histórico, tem-se realmente a impressão de que se torna cada vez mais sombrio o futuro da humanidade. Tenha-se, porém, em mente que os fatos não existem isolados, mas interligados, por relações de causalidade e finalidade, tanto mais rígidas e perfeitas, quanto maior a escala de tempo dentro da qual os observemos. Se, dentro de uma escala menor, os fatos se nos afiguram desordenados e anárquicos, dentro de uma escala maior, eles se acomodam ao imperativo de uma ordem soberana e inviolável. Dispõem-se eles, no imenso painel da História, exatamente como as figuras dessas grandes telas que, apreciadas de perto, carecem de sentido, pela aparente incoerência dos traços, mas que, contempladas à distância, nos dão a idéia de um conjunto harmônico e perfeito.

Quer isto dizer que, dentro de uma visão mais ampla da História, todos os acontecimentos estão condicionados a um objetivo supremo, em função do qual surgem, desenvolvem-se e desaparecem. Seja-me permitido insistir nisso, porque na demonstração desse finalismo reside a justificativa da mensagem de otimismo que me propus endereçar-vos nesta noite culminante de vossa vida estudantil. Não se trata, é óbvio, de um otimismo vago, inconsistente, sem qualquer substância filosófica, mas de um otimismo cujas raízes se inserem profundamente no cerne mesmo da realidade.

AGREDIR? NUNCA!

Provavelmente, muitos dentre quantos me ouvem estarão interessados em saber se esse otimismo decorre de uma convicção na vitória das forças da direita, da esquerda ou do centro. É lógico que, na defesa de qualquer tese, se impõe uma tomada de posição. O que, porém, não é lógico é que essa posição deva ser forçosamente de direita, de esquerda ou de centro. Direita, esquerda e centro são posições situadas no plano da horizontalidade, enquanto aqui procuro manter-me como sempre o fiz, no plano da verticalidade, isto é, no plano de quem não tem outros compromissos, nem outras preocupações que os de buscar a Verdade. Ora, a Verdade está muito acima das ridículas e estéreis discriminações de partidos, que mais têm servido ao interêsse de reduzido grupo, antes que ao interêsse da imensa coletividade; que mais se têm prestado para dividir os homens, lançando-os ferozmente uns contra os outros, não mais como simples adversários políticos, mas já convertidos em terríveis e rancorosos inimigos. Para buscar a Verdade, importa renunciar a toda posição agressiva, porque a agressão é fator inibitório no processo do conhecimento. O mistério também possui as suas defesas e só nos abre as portas quando o abordamos com pureza de alma, com elevação de sentimentos. É, pois, inútil e até contraproducente agredir. Está nas próprias leis da vida que toda forma agredida se reforça no processo de defesa. Agredir? Nunca! Nem mesmo ao erro, nem mesmo ao mal, por que o erro e o mal são como a treva que se desfaz por si mesma, tão logo se faça a luz! Além disso, por que havemos de responder ao mal com o mal, se o mal que fazemos fica conosco? Atentai para o homem, imagem de vós mesmos, e vêde como ele é frágil, muito mais frágil do que o "caniço pensante" de Pascal. Misericórdia, pois, para com ele, que em sua imensa fragilidade nada mais nos pede que compreensão e amor, iluminação e ajuda! Apesar da fragilidade que o caracteriza, não é lícito desesperar dele. É certo que ele nem sempre persegue o ideal do bem, mas, ainda quando trilhe os caminhos do mal, é sempre e inelutavelmente impelido ao bem, em virtude do crescente cerceamento de liberdade que lhe impõe a própria obstinação no mal. Os caminhos do mal são os caminhos da morte e, no fundo de cada ser, clama, com todas as forças de reconstrução, o instinto da vida!

Eis porque, caríssimos jovens, minha mensagem é de otimismo, isto é, de confiança no vosso destino e no destino do mundo. A despeito dos flagelos naturais que, em todas as épocas e em todas as latitudes, dizimaram populações inteiras; a despeito das guerras que, por toda parte, têm ceifado milhões de vidas; a despeito da miséria que se multiplica ameaçadoramente por todos os quadrantes da Terra; a despeito, enfim, das tremendas injustiças que abalam a estrutura da sociedade moderna, é forçoso convir em que tudo se encaminha para o bem, para uma ordem perfeita que, conquistada e consolidada no clima da dor, já não será o fruto de nenhuma coação externa ou interna, mas espontânea manifestação da consciência humana, integrada na plenitude de sua essência imortal.

A IMPULSÃO TEOFÂNICA NA COSMOGÊNESE

É de se ver como as forças da evolução operam, em meio a todas as convulsões - naturais e sociais - a maravilhosa ascensão da vida. Da gênese das nebulosas à gênese do homem e da gênese do homem à gênese de uma futura comunidade cósmica, pode-se traçar uma linha contínua, ininterrupta, de evolução criadora, expressão de um desígnio profundo, presente sempre em todos os degraus da escala dos seres. Na extensa gama fenomênica do Universo, evidencia-se uma impulsão teofânica, isto é, uma progressiva transparência do princípio divino que, como substância e lei de todo fenômeno, lhe rege o mecanismo do desenvolvimento e o encaminha às suas metas supremas.

Os grandes acontecimentos que se têm desenrolado no cenário da História natural e social não podem ser atribuídos, sistematicamente, ao fortuito embate das forças naturais, nem tão pouco à simples pressão das forças econômicas. Não foi, efetivamente, por virtude do acaso, nem por ação de forças puramente mecânicas que a energia se concentrou num ângulo do espaço infinito, para formar os vórtices galácticos, esses imensos universos-ilhas, em cujo seio vieram a estruturar-se os sistemas estelares e, no corpo destes, os sistemas planetários. Quando, ao telescópio, pervagamos o olhar pelas vastidões siderais, assombra-nos a constância e regularidade com que se desdobra êsse espetáculo de orgânica estruturação, à medida que alargamos e aprofundamos nossa penetração no Cosmo.Tudo se passa, como se o processo hilogenético tivesse por fim servir de base ao processo cosmogônico ou, em outros termos, como se a formação dos gigantes aglomerados de matéria estelar tivesse ocorrido necessariamente como primeiro impulso para a formação dos mundos. E tudo se passa, ainda, como se estes, que se contam aos bilhões, em cada Galáxia, tivessem a função específica de ser o suporte da vida e a vida, o suporte da consciência. A sabedoria da Lei, que a tudo provê, semeou-os em profusão pelo espaço cósmico, a fim de que, se não todos, pelo menos parte deles pudesse sobreviver às vicissitudes da jornada evolutiva, com as condições indispensáveis à realização de seus fins específicos.

A IMPULSÃO TEOFÂNICA NA BIOGÊNESE

Também não foi por acaso, nem por ação de forças puramente mecânicas, que se estabeleceram, no seio tépido dos mares primitivos, as condições para a gênese das primeiras formas vivas. Tão pouco, foi por acaso que, das formas mais elementares e inferiores da vida, se desenvolveram as formas mais complexas e superiores. Da matéria bruta e inorganizada não poderia brotar a vida, com a infinita variedade de formas que a caracteriza, se nela não houvesse uma força imanente, um princípio organizador e diretor, que lhe traça os rumos às supremas ascensões biológicas.

É evidente que o peixe não poderia jamais converter-se num anfíbio e abandonar o mar, que era o seu habitat natural, para, numa estranha aventura, lançar-se sobre os continentes e povoá-los de vida animal, se não fosse movido por uma impulsão interior, por uma força ascensional! O réptil que, por evolução, saiu do peixe, jamais teria abandonado o solo, que era o seu habitat natural, para criar asas e, convertido em ave, lançar-se no espaço aéreo, se não estivesse submetido a uma força incoercível, que atuava na íntima estrutura de seu ser. Nem o mamífero inferior se teria projetado às culminâncias da escala zoológica e emergido da irracionalidade para tornar-se um ser pensante, capaz das mais assombrosas sínteses mentais, se nele não atuasse uma virtus creatrix.

Por mais que se relute em aceitar, no imenso panorama da evolução, essa perspectiva teleológica, é imperioso reconhecer que tudo foi feito com vistas a um fim superior, a um objetivo supremo, que se evidencia cada vez mais nos fenômenos da vida. A evolução, com efeito, não pode ser o resultado puro e simples de fôrças externas, de agentes físicos e químicos, do jogo do acaso, de influências ambientes, da seleção do mais apto, da adaptação ao meio, da concorrência vital, mas sobretudo o resultado de uma pressão que, coadjuvada por todos esses fatores, se exerce de dentro para fora e se traduz, filosoficamente, como uma progressiva atualização de potencialidades. Observe-se, por exemplo, a germinação da semente. De início, não se vê nesta o mais leve vestígio do que ela há de ser. A ciência destruiu a velha crença dos biólogos preformacionistas, segundo a qual na semente da árvore ocultava-se uma árvore em miniatura, uma como redução, à escala microscópica, do tipo adulto. A árvore não é uma atualidade na semente, mas apenas uma potencialidade, uma latência, uma virtualidade. Quando a semente encontra as condições propícias à germinação, desenvolvem-se os seus recônditos poderes, libertam-se os seus princípios organogênicos e, como por encanto, vem à luz, como expressão de todo aquele dinamismo interior, a estrutura que lhe individua a espécie.

Na escala animal ocorre idêntica transformação desde o instante em que os gametas se fundem no ovo, até o momento em que o feto vem à luz. A princípio, o organismo não passa de minúscula massa esférica, indiferenciada, na qual não se vislumbra o mínimo esbôço anatômico. À medida, porém, que se acelera o rítmo do processo citogenético, registra-se uma progressiva diferenciação e especificação dos tecidos, que se tornam ósseos aqui, musculares alí, nervosos acolá, capilares além e, assim, por diante. E todo aquele agitado turbilhão vital, como se obedecesse ao comando de uma vontade profunda, principia a configurar-se e, onde antes nada mais havia que uma massa de estrutura homogênea, surgem agora os rudimentos dos órgãos, assim como as primeiras protuberâncias de que resultarão, mais tarde, a cabeça e os membros.

A IMPULSÃO TEOFÂNICA NA FILOGÊNESE

Mas, a ação das forças criadoras não poderia circunscrever-se, no campo da vida, a simples, variações embriológicas, registradas no mecanismo do desenvolvimento. Essas variações constituem apenas um capítulo, ou antes, uma recapitulação, de um mais vasto processo de variação, como se observa na seriação filogenética. As espécies, com efeito, não são invariáveis e independentes umas das outras, como se constituíssem rígidas criações à parte, precisamente porque nada há de fixo e isolado dentro deste Universo evolvente. Ao contrário, conforme revela a documentação paleontológica, arquivada nos sucessivos estratos geológicos, surgiram elas dentro de um admirável encadeamento de formas, que começa nos primeiros compostos albuminóides e, através de crescente complicação e diversificação, vem culminar no homem. Quando a genética afirma, com Weissmann, a independência do plasma germinativo em relação ao soma e destarte altera substancialmente o conceito de transmissão dos caracteres adquiridos para, enfim, assegurar que toda transformação sobrevinda ao soma se processa primariamente no germe, reconhece ela, embora sem o compreender, que o mais importante agente das transformações reside num campo de forças imponderáveis, mas imanentes à própria essência da vida. Pouco importa o nome com que se designe esse agente. Chamem-no entelequia com Aristóteles e Hans Driesch, idéia diretriz com Claude Bernard, vontade da espécie com Schopenhauer, mediador plástico com Stahl, força plástica com Cournot, élan vital com Bergson, causalidade da necessidade com Goblot, impulsão formadora e imanente com Goebel, psico-lamarquismo com Pauly, psiquê formadora com Teilhard de Chardin, holismo com Smuts e Meyer, centro-epigênese com Rignano, o que é certo é que todos esses filósofos e biólogos são unânimes em reconhecer a presença de um agente interno, de uma causa imanente. Inùtilmente se apelará para fatores extrínsecos, causas externas, que sobre serem contingentes e aleatórios, jamais poderiam explicar a constância e regularidade com que o mais sai do menos, com que a ordem sai da desordem, e como, enfim, as formas superiores saem das inferiores. Tudo se passa, sob nossos olhos atônitos, como se todos os fenômenos se desenvolvessem segundo um plano pré-estabelecido, como se seguissem uma trajetória previamente traçada.

TRAJETÓRIA DA IMPULSÃO TEOFÂNICA

Não se trata, bem se vê, de uma trajetória retilínea, como se a impulsão fenomenogênica avançasse de baixo para cima, segundo a bissetriz de um ângulo retângulo, cujos lados representassem as coordenadas de espaço e tempo. Tão pouco se trata de uma trajetória circular fechada, consoante a qual todos os fenômenos voltariam a repetir-se indefinidamente, sem meta, sem finalidade, conforme postula a teoria do retorno eterno ou da eterna recorrência, que Nietzsche tomou aos estóicos gregos e estes, através dos pressocráticos, às velhas cosmogonias indianas. Trata-se, antes, de uma trajetória cíclica, feita de avanços e recuos, que se abre e se fecha periodicamente, mas nunca no mesmo nível da escala evolutiva. Cada vez que se fecha um ciclo, ao completar-se a maturação do fenômeno, fecha-se para abrir-se outro, em nível mais alto e mais amplo, para a seu turno também fechar-se, com mais profunda maturação do fenômeno, e de novo abrir-se, em nível ainda mais alto e mais amplo, e assim sucessivamente, na matéria, na vida, na consciência, na sociedade e além de todas as dimensões concebíveis.

Imagem aproximada desse aspecto, a um tempo geométrico e dinâmico da evolução, patenteia-se claramente na trajetória descrita pelo movimento da Terra em torno do Sol. Na verdade, o nosso planeta não percorre, em seu giro anual, uma órbita fechada, como vulgarmente se crê, mas aberta, porque de estrutura espiral. Isso se deve ao fato de o Sol sofrer, de momento para momento, apreciável redução de massa, por efeito da conversão da matéria em luz. Daí resulta, segundo a cosmologia newtoniana, perda de influxo atrativo do Sol sobre a Terra, ou segundo a cosmologia einsteiniana, redução do grau de curvatura do espaço, nas vizinhanças do Sol. Seja, porém, qual for o ponto de vista em que nos coloquemos, o resultado inevitável dessa contínua dissipação da massa solar tem implicações para a mecânica do sistema: a Terra afasta-se constantemente do Sol, descrevendo em torno dele, embora com deslocamentos mínimos e imperceptíveis, uma órbita de abertura constante e, portanto, de estrutura evidentemente espiral. Vê-se, por aí, que cada vez que se completa o movimento de translação ou, generalizando, cada vez que o ciclo se fecha, fecha-se num ponto situado espacialmente além e evolutivamente acima do ponto de partida.

TEOFANIA E LIVRE ARBÍTRIO

Toda essa árida e já longa dissertação tem a finalidade de não só revelar a unidade de princípios, em todos os departamentos da Natureza, mas sobretudo de ajudar-nos a compeender a técnica da evolução no organismo social. Aqui, os fenômenos assumem aspectos surpreendentes, porque entra a complicar-lhes o esquema de desenvolvimento uma componente nova - a liberdade. Não há dificuldade, como vimos, em aceitar a presença de um finalismo nos fenômenos da evolução enquanto nos situamos no plano da matéria e da vida, de vez que esse finalismo é aí expressão de determinismo, ou, em termos teológicos, de uma ação providencial. Mas, quando, percorrendo a mesma trajetória evolutiva, ingressamos nos domínios da razão e nos dispomos a analisar, à luz dos mesmos princípios, o comportamento do homem, em sua expressão social, esbarramo-nos com uma dificuldade quase insuperável. Refiro-me ao problema de conciliar a noção de finalismo social com a noção de livre arbítrio individual. As duas noções, conquanto aparentemente inconciliáveis, são perfeitamente compatíveis, se compararmos o organismo social a um comboio composto de inúmeros vagões, dentro dos quais pode o homem locomover-se livremente, embora condicionado ao destino do comboio. Para que o símile seja perfeito, admitiremos que o nosso comboio está sujeito, como todos os outros, aos acidentes próprios da jornada: poderá descarrilar-se e de novo ser reconduzido aos trilhos, para prosseguir viagem, rumo à sua meta. Dentro do comboio da vida, o homem pode assumir duas atitudes: ou aceita o destino que, para seu próprio bem, lhe impõem as superiores leis da vida, ou então se rebela, seja atirando-se pela janela, seja descendo na primeira estação, até que um dia, premido pela dor, se decida a prosseguir viagem.

Da comparação resulta que o livre arbítrio, tal como habitualmente o concebemos, não passa de uma aberração da razão, porque ele só se manifesta em nós como faculdade de violar a lei, de implantar a desordem no seio da ordem. A razão reta e perfeita não é aquela que opera caprichosa e arbitrariamente, mas aquela que dá continuidade ao impulso criador que vem, como um processo teofânico, das origens mesmas do Universo e está profundamente inscrito na essência de cada ser, como o mais poderoso instinto da vida.

Toda a Natureza está submetida ao determinismo da Lei e esse determinismo, expressão do Pensamento e da Vontade de Deus, outra coisa não é senão o determinismo do bem, o determinismo do amor. Quanto mais o ser se aperfeiçoa, tanto mais se identifica com aquele Pensamento e aquela Vontade, isto é, tanto mais se determina no sentido do bem. Ninguém pode determinar-se no sentido do mal, senão até o ponto em que lhe permitam os limites de flexibilidade ou elasticidade da Lei. Chega, pois, um momento em que Lei detém a marcha da subversão e disciplina o fenômeno. É aí, então, que entram a funcionar os dolorosos processos de reajuste, cujos impulsos só se esgotarão quando estiver definitivamente restabelecido o equilíbrio perturbado.

Ilude-se, pois, o homem, quando pensa que à Vontade soberana e indefectível de Deus pode ele sobrepor a sua pobre e falível vontade, a ponto de criar, no âmbito da Lei Eterna, uma desordem permanente. As forças da evolução, vale dizer, a Vontade de Deus, empenhada, como vistes, numa laboriosa e paciente preparação, pelos invisíveis caminhos do tempo, em que tudo foi cuidadosa e inteligentemente previsto, para o advento do homem, não poderia, depois de haver criado a sua mais perfeita obra, relegá-la à própria sorte, à mercê dos seus caprichos. Não! Seria o cúmulo da imprudência e da imprevidência!

Às vêzes, o homem com toda a sua presunção de grandeza e superioridade não passa de um instrumento, imperfeito embora e quase sempre inconsciente, no mecanismo providencial das grandes leis da vida. Estas se valem, sabiamente, até de suas fraquezas, para atingir os seus fins. Assim é que elas se servem de um Fernão Dias Pais, o Caçador de Esmeraldas, para, acionando-o através das cordas de uma ambição vulgar, torná-lo operante agente do progresso. Pouco importa aos mais altos desígnios da evolução se o grande bandeirante realizou ou não o acalentado sonho de descobrir a jazida das esmeraldas. O que realmente importa à substância da vida, o que efetivamente conta para a obra do bem comum é que ele tenha plantado, na rota de suas grandes aventuras pelos sertões inóspitos e bravios, a semente que mais tarde havia de germinar e florescer, nas inúmeras cidades de nosso interior.

A IMPULSÃO TEOFÂNICA NA EVOLUÇÃO SOCIAL

A História ilustra, em seus lances mais decisivos, como o homem põe e Deus dispõe. A despeito dos avanços e recuos, dos altos e baixos, vê-se, na tessitura dos acontecimentos, que se vêm desenrolando, no panorama dos milênios, como a civilização, impelida por secretas forças, avança para a consolidação das mais altas conquistas do espírito e a formação de uma consciência coletiva, capaz de assegurar definitivamente a paz entre todos os povos. Um desses lances da História, responsáveis por uma total mudança de rumos na marcha da civilização, pelas profundas repercussões que teve em todos os setores das atividades humanas, foi o que se convencionou chamar Século de Péricles. A civilização atinge, com os Gregos, uma culminância jamais alcançada. É o período de máxima opulência e esplendor a que poderia chegar o gênero humano. Surgem os maiores vultos da civilização helênica. Um frêmito de renovação percorre todos os territórios da cultura, assinalando o advento de novas conquistas no campo das ciências, da filosofia e das artes. Mas, após haver atingido o seu fastígio, a civilização grega entra em declínio, em desagregação e desce a um nível inferior. Mas, a onda criadora, que subira, para depois descer, não desceu ao mesmo nível de onde partira. Desceu a um nível mais alto, para daí elevar-se de novo, no Século de Augusto. Com este, inaugura-se um novo ciclo evolutivo para a humanidade. A civilização eleva-se a uma nova culminância. Surgem poetas e prosadores, filósofos e historiadores, gramáticos e jurisconsultos. Cerram-se as portas do templo de Jano e Cristo nasce nos confins do Império Romano. De novo, porém, a onda reflui. Um sôpro de dissolução abala o colosso dos Césares e toda a sua monumental estrutura estremece-se e rui fragorosamente. Escurecem-se os horizontes do mundo antigo, Roma envolve-se nas sombras do crepúsculo de sua grandeza e, em breve, desce sobre a Europa a noite da idade média. Fecha-se o ciclo de uma civilização, mas as idéias que ficaram em fermentação na obscuridade do mundo medieval vão explodir-se nas florescências do Renascimento. A civilização atinge uma nova culminância, agora mais alta do que todas as outras, porque aos valores antigos, herança das duas grandes civilizações mediterrâneas, vêm somar-se valores novos. Os sublimes ideais do Humanismo, que se incarnam nas primeiras grandes figuras da idade moderna, vão impregnar de espiritualidade todas as fontes da cultura. Inventa-se a imprensa e inicia-se o ciclo das grandes navegações. A onda subiu, criou um novo estilo de vida, mas, depois, começou a descer e, agora, já em pleno século XX, às portas do III Milênio, ainda não cessou de descer, como se evidencia naquilo que melhor define e caracteriza cada tipo de civilização - o seu comportamento ético e estético. Registra-se, por toda parte, um visível sinal de cansaço, um inconfundível sintoma de exaurimento, uma incapacidade manifesta para criar, em substância, algo que abale profundamente a alma do povo e o arrebate para as mais sublimes realizações do espírito. Arrefeceu-se aquele ímpeto criador capaz de romper a inércia da forma e nela plasmar uma mensagem de eternidade. Daí as insólitas e aberrantes criações do modernismo, aliás perfeitamente compreensíveis e explicáveis, por isso que traduzem fielmente o espírito da época, que é de decadência. Vê-se, pois, que a nossa civilização já produziu os seus frutos e, agora que chegamos ao fundo da polpa e lhe provamos o travo amargo, é justo volvamos a atenção para a semente, em cuja potência criadora se concentram as esperanças de uma nova messe.

Tal, meus caros jovens, a maravilhosa técnica com que, em todos os tempos, se desenvolve o fenômeno da evolução. Importa compreendê-la para que, em face da acentuada decadência de nossos dias, não venhamos, possuídos do desespêro, tomar uma posição agressiva e, portanto, destrutiva. A decadência, por estranho que isso nos pareça, integra-se na contextura do processo criativo. A impulsão desce, recua, como para represar forças, a fim de se lançar a uma nova arrancada evolutiva e, quanto mais ela desce, tanto mais forças acumula para subir. O comportamento da Lei assemelha-se ao daquele que, para abrir uma porta emperrada, instintivamente recua e quanto mais recua, tanto maiores são o ímpeto e o vigor com que se lança contra ela.

CONCLUSÃO

Eis aí, meus bons amigos, os fundamentos filosóficos e científicos da minha mensagem de otimismo e confiança no futuro. Tende, pois, bom ânimo, porque talvez não tarde o momento em que se hão de inverter os impulsos do fenômeno, do sentido de recuo para o de avanço, a fim de que as forças criadoras se encaminhem a uma nova culminância da trajetória da evolução. Já se divisam, no tremendo impacto ocasionado em nossa civilização pelo vertiginoso avanço da técnica, os sinais precursores da grande transformação que vem próxima. As repercussões do fenômeno não ficarão circunscritas a determinado povo ou raça, mas atingirão, em seus imensos benefícios, a Terra inteira, por isso que serão o fruto da formação de uma consciência coletiva, diante de cuja expansão não haverá fronteiras, nem geográficas, nem lingüísticas, nem políticas, nem religiosas. Não é uma profecia o que vos anuncio, mas simplesmente a visão clara da realidade histórica, na urdidura da evolução.

A transformação virá, inevitavelmente, porque ela está, como acabais de ver, no determinismo da Lei. Debalde tentarão opor-lhe resistência os espíritos retrógrados, a mentalidade misoneísta de todos os tempos. Chega um momento em que já não é possível sustentar as velhas estruturas, há muito superadas e caducas. Então a força da renovação destrói os falsos valores, derriba os falsos ídolos e abate os monumentos erigidos ao orgulho e à vaidade, ao ódio e à prepotência, porque acima dos mesquinhos interesses dos indivíduos e dos grupos das castas e das oligarquias, pairam os supremos interesses da humanidade.

Meus caríssimos formandos, aqui termino minha mensagem à vossa inteligência e ao vosso coração. Deponho-a em vossas mãos, sem a vaidosa preocupação de que a aceiteis ou a recuseis. Minha preocupação, ao formulá-la, foi sobretudo a de ser autêntico, fiel a mim mesmo, como convém a todos quantos objetivam servir a Verdade. Nela, crêde-me, eu me pus por inteiro, como penso, como sinto, como vivo, como sou. Peço-vos, pois, humildemente, que se outros méritos não me podeis creditar, que me crediteis, pelo menos, o mérito da sinceridade.

Empenhei-me em dar-vos, numa visão de conjunto, a compreensão da realidade. Sinto, porém, que não é tudo, porque a realidade, neste instante, vos pede algo mais que a simples compreensão: pede-vos também ação, mas ação construtiva que, principiando pela transformação de vós mesmos, se exerça e se expanda, em perfeita consonância com a ação das leis da vida, por forma que sejais, onde quer que vos encontreis, um fator positivo na dinâmica da evolução. Ação capaz de dilatar as fronteiras angustas de vosso ser até que elas se confundam e se identifiquem com as próprias fronteiras da Humanidade! Esse o grandioso destino do homem sobre a face da Terra e esse, portanto, o vosso próprio destino!

* Oração de paraninfo pronunciada na solenidade de colação de grau da turma de Licenciados da Faculdade de Filosofia da UFMG, no dia 19/12/65, no Teatro Francisco Nunes, Belo Horizonte.