Os Nomes de Deus no Indo-Europeu e no Semítico*


Rubens C. Romanelli

O presente estudo aspira a ser uma breve história da idéia de Deus. Nada obstante, ele constitui muito menos uma tese de História do que de Lingüística. Escrevêmo-lo, é verdade, com o escopo de traçar a história da idéia de Deus, mas, em vez de estudar essa idéia, pesquisando-a na evolução do pensamento religioso dos povos, propusêmo-nos estudá-la, pesquisando-a na evolução de sentido das palavras designativas da divindade, nas línguas que integram as duas mais importantes famílias lingüísticas do mundo - a família indo-européia e a semítica. É nestas, indiscutivelmente, que a idéia de Deus se revela mais evoluída ou, se o preferirem, mais despojada de elementos antropomórficos.

Apesar de muitos povos indo-europeus e semíticos haverem alcançado um nível de civilização e cultura superior ao de outros povos, releva notar que nem todos eles são ou foram monoteistas. Alguns foram politeistas, outros, henoteistas, mas, nem por isso, deixaram de ter um apelativo ou nome comum para todas as divindades constitutivas de seu panteão. É desse nome genérico, e não dos nomes de cada divindade em particular, que nos ocuparemos aqui, sempre que nos referirmos a povos politeistas ou henoteistas.

Procuramos agrupar os nomes, não segundo o critério das afinidades etimológicas, mas segundo o critério das afinidades semânticas, sem deixar, contudo, de remontar, em cada caso, à raiz, ou seja, àquele elemento último, a que se reduz, morfológica e semânticamente, o vocábulo. Através de cada agrupamento, evidencia-se que, na grande maioria dos casos, o nome de Deus é precisamente o nome designativo daquele, dentre os atributos divinos, que, em cada povo, mais feriu a sensibilidade ou a imaginação dos crentes. Resulta daí que cada povo contempla a divindade sob um prisma diferente. Para uns, Deus se distingue por sua munificência, donde ser chamado "o dispensador, o distribuidor das graças". Para outros, Ele se caracteriza por sua intocabilidade e pureza, donde ser designado "o sagrado, o santo". Para estes, Deus impressiona por sua beneficência, donde ser nomeado "o benfeitor". Para aqueles, Ele avulta por sua Eternidade, donde ser concebido como "o que existe sempre". Aqui, Ele é respeitado por sua soberania, donde ser denominado "o Senhor". Ali, é cultuado por sua bondade, donde ser designado "o bom, o excelente". Acolá, é venerado por sua espiritualidade, donde ser chamado "o espírito por excelência".

Examinemos cada uma dessas diferentes maneiras de sentir ou de conceituar a divindade, mediante o estudo dos diferentes nomes com que é ela designada em nada menos de quarenta línguas, entre vivas e mortas:

1. DEUS COMO «O CELESTE»:

Dos nomes designativos da divindade, no domínio indo-europeu, os mais difundidos repousam numa forma nominativa única, *deiwos, portadora da noção de "o celeste". Formado da raiz indo-européia *dei- "brilhar, fulgir, cintilar", acrescida do sufixo adjetivo -wo-, tinha esse tema, primitivamente, o sentido de "brilhante, luminoso". Posteriormente, na qualidade de epíteto, serviu para designar o "céu", noção da qual se desenvolveu, na linguagem religiosa, a de "céu como divindade" e, portanto, a de Deus. Literalmente, pois, Deus era "o celeste", por oposição ao homem, concebido como "o terrestre". Essa oposição homem/deus, resultante da oposição terrestre/celeste é, aliás, muito antiga, como se patenteia em várias línguas, nas quais a palavra denominativa de "homem" significa, etimologicamente, "o terrestre". Vejam-se, por exemplo, o latim homo, o gótico e o anglo-saxônio guma, o lituânio zmogùs e o tocário B saumo.

Do tema indo-europeu *deiwos "o celeste" derivaram-se , através das mais variadas transformações fonéticas, os nomes da divindade, nas seguintes línguas:

a) Sânscrito deváh, ao qual corresponde o avéstico daeva-. No avéstico, porém, o tema especializou-se com o sentido oposto de "deus do mal, demônio", inversão semântica que lembra o velho mito do anjo decaído, cuja história coincide com a expressão hebráica, bem-xahar "filho da aurora", que S. Jerônimo traduziu por Lucifer, literalmente, "portador da luz".

b) Latim deus, donde o francês dieu, o italiano dio, o espanhol dios e o português deus. Da evolução fonética normal de *deiwos tirou o latim o adjetivo divus, donde o feminino substantivado diva "deusa", o adjetivo secundário divinus "divino" e, deste, o derivado verbal divinare "advinhar".

c) Antigo irlandês dia, com o qual concordam, etimológica e semânticamente, o címbrico duw e o bretão doué.

d) Antigo nórdico ou escandinávio, tivar, nome pluralício, já que o simples singular é desusado.

e) Lituânio dievas. De idêntica origem e sentido são o letônio dìevs e o antigo prussiano deiwas, com o qual concorre a variante deiws.

2. DEUS COMO 'O DISTRIBUIDOR, O DISPENSADOR':

Nos ramos iraniano e eslávico, a idéia de Deus desenvolveu-se da de 'distribuir, repartir, dividir'. Deus é, com efeito, 'o distribuidor, o dispensador das graças', aquele ao qual incumbe, dentro das velhas concepções religiosas do homem, fazer a partilha dos dons da vida. Essa idéia já estava implícita na primitiva acepção da raiz indo-européia *bhag-, que era 'destinar como partilha, determinar a parte ou quinhão de'. Paralelamente ao sentido radical de Deus, como 'o distribuidor, o repartidor', ocorre, no domínio indo-iraniano, o de 'Senhor, dono' (cfr. o sânscrito bhágah e o avéstico baga-), considerando-se que, efetivamente, só o senhor, o dono dispõe de meios para 'distribuir, repartir, agraciar'.

a) Avéstico baga- 'deus, senhor', nome a que correspondem, pela forma e pelo sentido, o médio e o novo persa bag.

b) Antigo eslavo eclesiástico *bogu 'deus', com o qual se relacionam o búlgaro bog, o sérvio-croata bog, o tcheco buh, o russo bog e o polonês bog, todos de igual sentido.

3. DEUS COMO 'O INVOCADO':

No domínio germânico, a idéia de Deus resultou da especialização de uma forma nominativa neutra do particípio passado indo-europeu, *ghutos, derivado, do sufico -to-, da raiz verbal *ghau- 'clamar, chamar, invocar', sentido sobrevivente nos cognatos sânscrito hávate, avéstico zavaiti, o antigo eslavo eclesiástico zivati. A forma germânica, na qual se converteu o particípio *ghutos, é *guda e esta assumiu, no vocabulário religioso, o sentido de 'o invocado', isto é 'o ser que se invoca, aquele para quem se apela', no ato da oração. Essa especialização de sentido ocorreu nos três ramos do germânico, isto é, no oriental, no setentrional e no ocidental:

a) Gótico gub 'deus'.

b) Antigo islandês gud 'deus', formas com as quais se relacionam, no escandinávio, o norueguês gud, o dinamarquês gud e o sueco gud, todos de idêntica significação.

c) Antigo-alto-alemão got, que, através do médio-alto-alemão got, veio culminar no moderno alemão Gott, todos com o sentido de 'deus'.

Alguns filólogos, induzidos pela semelhança da forma, relacionaram falsamente, sem qualquer consideração para com a fonética histórica, as palavras germânicas que expressam a idéia de 'deus' com as que traduzem a idéia de 'bom', como o gótico guds, o dinamarquês, o sueco e o anglo-saxônico god, o inglês good, o holandês goed e o alemão gut, que se prendem a outra raiz, *ghedh-, *ghodh- 'unir'.

4. DEUS COMO 'O SAGRADO, O SANTO':

A raiz indo-européia dhes-, já empregada, no próprio indo-europeu comum, com acepções religiosas, forneceu em armênio um derivado com o sentido de 'deus'. Trata-se do nome pluralício dik, saído de dheses, que se traduz por 'deuses'. O sentido radical de 'sagrado, santo' sobrevive nos cognatos itálicos, como atestam o osco fiísnam (acusativo) 'templo' e o latim fanum (< *fasnom) 'lugar sagrado, templo', feriae (< *fesiae) 'dias de descanso, dias de repouso (em honra dos deuses)', festus, geralmente unido a dies, para designar, originariamente, os dias de festas religiosas.

5. DEUS COMO 'O BOM':

Ao lado de deváh 'deus' (v. n° 1, letra a), designação comum a todas as divindades do panteão indiano, possui o sânscrito outro apelativo, vásuh 'deus', não tão freqüente como aquele, mas de uso também corrente, tanto na literatura védica, quanto na clássica. Trata-se de uma substantivação do adjetivo vásuh 'bom', que se liga à raiz indo-européia *wesu-, de igual significação. O sentido radical de 'bom' e de seus graus, 'melhor' e 'ótimo', mantém-se nos cognatos iranianos, célticos, germânicos e eslávicos, qual se vê no avéstico vahya- 'ótimo', médio persa veh 'melhor, ótimo', novo persa bih 'bom, melhor', antigo irlandês fo 'bom', gótico insiza 'melhor' e antigo eslavo unje 'melhor'.

6. DEUS COMO 'O ESPÍRITO BENFEITOR':

Para nomear a divindade, o sânscrito empregava, além de deváh e vásuh, já vistas, a palavra súrah, de curiosa história. Sobre a raiz indo-européia *an- 'respirar', construiu-se uma forma de alargamento, *ansu-, com o sentido de 'respiro, sopro vital', da qual o sânscrito tirou o substantivo ásu- 'hálito vital, respiro, alento', donde 'espírito' e, daqui, com o sufixo abstrato -ra-, o derivado ásurah 'espírito malfeitor, demônio', forma com a qual concorda o avéstico ahura- (v. n° 7, letra b) 'senhor, detentor do poder'. O a inicial de ásurah foi errôneamente interpretado como o prefixo privativo a-. Efetivamente, pensou-se que a palavra fosse composta de um nome, súrah, ao qual se tivesse preposto o privativo a-. A partir do momento em que se praticou essa falsa análise etimológica, a palavra súrah que jamais existira, passou a existir, com o sentido evidentemente oposto, ao de ásurah, isto é, 'espírito benfeitor, Deus'. E foi realmente com essa significação que a palavra entrou em circulação na literatura sânscrita.

7. DEUS COMO 'O SENHOR':

Graças à influência eclesiástica, generalizou-se, nas línguas européias, o uso da palavra 'senhor', para designar a divindade. Não se pode, contudo, pretender que o nome de Deus, como 'Senhor', seja uma noção puramente cristã, ou melhor, bíblica, decalcada no hebraico do Antigo Testamento. Na verdade, os autores das versões grega e latina do Antigo Testamento serviram-se da palavra grega 'Senhor' e da latina Dominus também 'Senhor', para traduzir o hebraico Adonai (v. letra a abaixo) e, não raro, também o hebraico Yahweh (v. n° 10, letra a). Cumpre, porém, não esquecer que a designação de 'Senhor', para a divindade, já aparece na literatura religiosa do Avesta, com uma antigüidade, portanto, superior a três mil anos. Aplicada à divindade, a idéia de 'Senhor' traz a conotação de 'amo' e é por assim senti-LO e entendê-LO que o crente se coloca diante dEle na condição de 'vassalo', para melhor testemunhar-LHE sua submissão e humildade.

Muitas são as línguas nas quais Deus é tratado como 'Senhor', mas em nenhuma delas essa noção nada tem de comum, etimologicamente falando, com a de qualquer das demais. Cada qual tira a noção de 'Senhor' de uma origem diferente, embora, em todas elas, à exclusão das línguas indo-iranianas, o nome de Deus, como 'Senhor', seja, como se viu acima, um decalco semântico do hebraico.

a) Hebraico Adonai 'Senhor', tratamento dado à divindade na linguagem dos profetas e tradicionalmente empregado na liturgia das sinagogas, para substituir o nome inefável do Deus de Israel (v. n° 10, letra a). Trata-se de um plural majestático do nome Adon 'Senhor', ao qual se juntou um sufixo de 1ª pessoa do singular, donde, literalmente, 'meu Senhor'. Compare-se com o fenício Adonai 'Senhor meu', de Adon 'Senhor', do qual tirou o grego o nome de sua divindade mitológica, Adonis.

b) Avéstico Ahura 'Senhor, detentor do poder', donde 'Deus'. A palavra iraniana é afim do sânscrito ásurah (v. n° 6). O nome Ormuzd ou Ormazd, com o qual se designa, no Ocidente, a divindade do Mazdeismo ou Zoroastrismo, resultou de uma contração do avéstico Ahura Masdah 'deus do bem' que, na concepção dualista de Zaratrusta ou Zoroastro, se opõe a Ahriman 'deus do mal'.

c) Fenício e Cananeu Ba'al (Baal), literalmente 'Senhor, amo, patrão, dono', empregado com o sentido de Deus, conforme se lê no Antigo Testamento (Juízes, 6:25). Em Babilônio, Bal, de idêntica origem e valor semântico.

d) Grego eclesiástico Kyrios 'Senhor, Deus', literalmente, 'que tem autoridade, que tem poder, soberano, dono', de 'autoridade soberana, poder de fazer ou não fazer', de uma forma nominativa indo-européia *kuros 'inchado, robusto, forte, herói', alargamento, de sufixo -ro-, da raiz indo-européia *keu- "inchar".

e) Latim eclesiástico Dominus 'Senhor, Deus', literalmente 'dono da casa', de *domo-no-s, derivado de sufixo -no- da forma nominativa indo-européia *domos 'casa', grau flectido da raiz *dem- 'construir'. De *domos sairam também, com o mesmo sentido, o sânscrito dámah e o grego dómos. Ao lado das formas de tema em -o-, houve, no indo-europeu, formas de tema em -u-, como comprovam o latim domus e o antigo eslavo eclesiástico domu, também 'casa'.

f) Inglês Lord 'Senhor, Deus', do anglo-saxônico hlaford, hlafweard, 'o guardião do pão', de hlaf (donde o inglês loaf) 'pão' e weard (donde o inglês ward) 'guarda, vigia, guardião'.

g) Português Senhor, do latim seniore(m) 'mais velho', acusativo do comparativo de superioridade do adjetivo senex, senis 'velho', da raiz indo-européia *sen(o)-, de igual sentido. A raiz está bem representada em vários dos dialetos em que se fragmentou a primitiva unidade indo-européia: sânscrito sánah, avéstico hana-, armênio hin, grego hénos, antigo irlandês sen, lituânio senas, todos com o sentido radical de "velho".

h) Romeno domn 'Senhor, Deus', do latim dominu(m) (v. letra d acima). A palavra romena própria para designar a divindade é dumnezeu, que é o resultado da contração dos termos de uma expressão vocativa latina, domine deus 'ó senhor Deus'. O segundo elemento do vocábulo contrato, zeu, saído do latim deus (v. n° 1, letra b), é usado apenas para denominar o deus dos pagãos. Quanto ao primeiro elemento, dumne, é uma variante de domn, mas ainda com a desinência do vocativo latino.

8. DEUS COMO 'O ESPÍRITO POR EXCELÊNCIA':

O nome genérico com que no panteão helênico se designava a divindade era theós, nome oriundo de uma forma antiga, saída de *dhwesos da raiz indo-européia *dhwes-, dhewes-, alargamento da raiz *dheu- 'espalhar, dispersar (o pó, o fumo), soprar, ventar'. Da idéia de 'vento, sopro' desenvolveu-se a de 'espírito', segundo se verifica em alguns cognatos, como o lituânio dvasià e o médio-alto-alemão getwas 'espectro, fantasma', donde 'espírito' e, daqui, 'espírito por excelência, Deus'. A noção de 'espírito, alma' resultou, na maior parte das línguas, de uma velha metáfora da humanidade, segundo a qual o espírito ou a alma é como 'um respiro, um vento, um sopro'. Comparem-se o sânscrito átman- e pránah, o grego psukhê e pnéuma, o latim anima e spiritus, o romeno suflet, o norueguês ondi, andi, o antigo eslavo eclesiástico dusa e duch, com os quais se relacionam o búlgaro dusa e duch, o tcheco duse e duh, o sérvio-croata dusa e duch, o russo dusa e duch e o polonês dusza e duch, todos com a significação primária de 'respiro, sopro'.

9. DEUS COMO 'A DIVINDADE POR EXCELÊNCIA':

Um simples monossílado serviu, desde tempos imemoriais e de um a outro extremo do domínio semítico, de radical portador da idéia de Deus. É o monossílado El, de vocalismo alternante, de língua para língua, e de sentido irredutível. Vãs e infrutíferas têm sido as tentativas de explicar o sentido abstrato da palavra, a partir de uma noção concreta. Sempre e por toda parte, ela significou 'Deus', como a comprovar que essa idéia é realmente irredutível.

a) A forma El ocorre em cananeu, com o sentido de 'o Deus' e, em hebraico, com o sentido de 'o ser divino'. É às vezes usada no Gênesis, em expressões como El Elyon 'Deus altíssimo' e El Shaddai (El sad'i) , literalmente, 'Deus das Montanhas', mas traduzido na Vulgata por 'Deus onipotente'. Com freqüência, aparece também como elemento final de antropônimos bíblicos, tais como Dani-el (Juiz de Deus), Gabri-el (homem de Deus), Gamali-el (recompensa de Deus), Isma-el (Deus ouve), Isra-el (combatente de Deus), Jo-el (Jeová é Deus), Rafa-el (Deus curou), Salati-el (supliquei a Deus), Samu-el (ouvido por Deus), Emanu-el (Deus conosco).

b) Ao lado de El, ocorre, no hebraico do Antigo Testamento, o nome Elohim, plural majestático do hebraico Eloah, assim como do cananeu El. A despeito de ser uma forma de plural, Elohim designa, como ensinam os textos de Ras-Shamra, o "Deus Único".

c) Em acádio, o radical semítico apresenta-se com outro vocalismo, tomando a forma Ilu.

d) Em aramaico bíblico, o nome da divindade é Elah, com vocalismo radical, portanto, normal.

e) Em siríaco, o nome é Allaha e sua estrutura lembra a do árabe (v. letra f abaixo).

f) Finalmente, em árabe Allah, de All-Ilah 'o Deus por excelência', forma na qual al é simplesmente o artigo definido árabe aglutinado ao nome. Na conhecida fórmula de profissão de fé do islamismo, o nome da divindade aparece duas vezes, uma sem artigo e outra, com ele: la ilah illa Allah, isto é, 'não há outro Deus, além de Alá'. O nome ocorre também na interjeição portuguêsa oxalá, do árabe 'in sa'a Allah, literalmente, 'se Deus quiser'.

10. DEUS COMO 'O EXISTENTE':

a) Ao lado do plural hebraico Elohim, ocorre, no Pentateuco, a forma Yahweh, vocalização do tetragrama sagrado Yhwh, letra a letra, yod heth waw heth e cuja verdadeira interpretação é ainda algo enigmática. A tendência dominante entre os mais eminentes hebraistas é a de interpretar o nome hebreu da divindade, segundo sugere o próprio texto bíblico, como uma forma de 3ª pessoa do singular do imperfeito do verbo hebraico hwh "ser", vocalizado hawah, ou mais corretamente, hayah. O nome Yahweh, pode, assim, ser traduzido, ora com o valor verbal intransitivo de 'Ele é', 'Ele existe', ora com o valor verbal causativo de 'Ele faz ser', 'Ele faz existir'. Em sentido intransitivo, é Yahweh mesmo quem, no Antigo Testamento, se define como 'o auto-existente', 'o que existe sempre', 'o Eterno': ''Ehyeh o'aser 'ehyeh, isto é, Eu sou quem sou (Êxodo 3:14). Em sentido causativo, Ele pode ser definido como o 'Criador do Mundo'.

A forma Jeová (Jehovah), sob a qual é mais conhecido o Deus de Israel, é híbrida, por isso que resulta de uma combinação do puro consonantismo primitivo de Yhwh, com o vocalismo de Adonai ou Adonay (v. n° 7, letra a). Foi criada para evitar que se pronunciasse em vão o nome sagrado, conforme recomenda o Decálogo (Êxodo 21:7): Sem ha meforas, isto é, 'o nome do Senhor é inefável'.

b) Ao hebraico Yahweh corresponde o babilônio Ahiah 'Eu sou', forma verbal também tomada, às vêzes, como nome da divindade.

CONCLUSÕES

Das pesquisas que empreendemos no vocabulário indo-europeu e semítico, podem tirar-se as seguintes conclusões:

1. Reduzem-se a dez, nas quarenta línguas pesquisadas, as idéias fundamentais em que se baseiam os nomes designativos da divindade.

2. Na maior parte dos casos aqui tratados, esses nomes consubstanciam uma metáfora ou translação de sentido.

3. Em alguns casos, os nomes resultaram de uma interdição vocabular e, como tal, classificam-se entre velhos tabus lingüísticos.

4. Os diferentes atributos sob os quais os povos indo-europeus e semíticos conceberam a divindade podem coexistir no mesmo SER e são perfeitamente compatíveis com a idéia do DEUS ÚNICO da concepção cristã.

*Separata No. 18 da Revista da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, dezembro 1968/1969, 11p. (141-151).