Rubens Costa Romanelli, Sábio e Virtuoso*


Fidélis Chamone Jorge



"Cultiva com carinho o teu espírito. Mas, não cuides simplesmente de ser culto, senão também de ser bom. A cultura poderá dar-te a glória dos homens, mas só a bondade poderá conferir-te a glória de Deus."

R.C. ROMANELLI

"AD ASTRA PER ASPERA"**

Tive a honra de conhecer o Mestre Rubens Costa Romanelli por ocasião de uma Confraternização de Mocidades Espíritas de Minas Gerais que se realizou em Manhuaçu (MG), em 1963. Viajávamos no mesmo ônibus, quando numa de suas paradas, de madrugada, encontramo-nos à porta de um pequeno restaurante. Cumprimentamo-nos cordialmente e, nesse instante, verifiquei que se tratava de Rubens Costa Romanelli. Perguntei-lhe se era o autor d'O Primado do Espírito. Qual não foi meu contentamento ao constatar que estava diante de uma personalidade das mais sábias e virtuosas a um só tempo.

Fomos sempre amigos inseparáveis, na alegria e na dor. Participei muito de suas dores, mas não me duvida jamais que maior foi a sua participação benfazeja em minha Vida. Tão sensível foi a ajuda que me concedeu, sobretudo, através de exemplos eloqüentes, que não me é difícil asseverar que Rubens Costa Romanelli foi, de todos os que eu conheci, a maior personificação do Amor, dado que, nele, eu não sabia o que era mais saliente, se a sabedoria ou se as virtudes.

Homem culto, mas muito cuidadoso de não perder de vista a simplicidade, agia com humildade na grandeza.

É-me extremamente penoso um depoimento pessoal, uma vez que sua vasta obra fala, a todos, alto e bom som. Foi essa a razão que me levou a declinar-lhe as publicações sempre de forma minuciosa, fundamentando-me numa pesquisa que me situasse e aos leitores ao pé da verdade.

O lirismo com que nos incita à conquista de nós mesmos é algo grandiloqüente. Romanelli é dos raros que se propõem ao ministério do Bem, mas, sobretudo, através da grandiloqüência do exemplo que ensina melhor. Suas aulas foram sempre lições de Vida, urdidas na luta sem tréguas, incansável e persistente.

Seu espírito Universal e, se o preferirem, cósmico, está para lá das fronteiras ideológicas. Fala a todos com o mesmo Amor, ao católico, ao espírita, ao protestante, ao ateu ou ao agnóstico. Trabalhou, incansavelmente, com trinta línguas ocidentais da grande família indo-européia, mas sobretudo, escolheu, dentre todas, a Língua do Amor com que pudesse falar aos semelhantes, consubstanciando-se em Deus, porque, por convicção, asseverava que Deus, em última análise, é, em essência, o próprio Amor.

Ingentes foram as lutas com que se deparou. Não menos ingentes foram a perseverança e a coragem com que as enfrentou. Sempre confiante, nutria-se com o adubo de uma fé raciocinada, inquebrantável, inabalável.

Paciente na dor, ponderado na alegria, conseguiu superar-se a si através do profundo conhecimento de si mesmo.

Aos 22 de dezembro de 1978, conduzia seus familiares rumo a Londrina, no Paraná. Nas circunvizinhanças de Itápolis, norte de São Paulo, foi vítima de catastrófico acidente automobilístico, no qual lhe faleceram a companheira e, minutos após, também, sua caçula ao dar entrada no hospital daquela cidade.

Coube-me a dolorosa tarefa de confessar-lhe a verdade relativamente ao passamento de Otaíza e Elisa. Nesse instante, exclama, veementemente: "Como me fazem nutrir uma esperança inglória, logo a mim que vejo na morte a expressão da própria Vida!" O peito mostra-se, visivelmente, arfante. Uma lágrima corre-lhe no canto externo do olho esquerdo e diz-me: "Coitadinhas, tudo tão triste!".

O Mestre prossegue inquebrantável diante das vicissitudes. Nenhum instante de revolta, nenhum esboço de queixume. Deus em toda sua glória sabe que "Não é melhor para os homens que lhes aconteça tudo o que eles querem", Heráclito, frag. 110.

No dia 24 de dezembro de 1978, num sábado pela manhã, transportaram-no de avião para Belo Horizonte, na companhia de Juliana que, como ele, estava politraumatizada; de Lilavate sua filha e de Dr. Dulmar Garcia de Carvalho, médico, amigo e espírita. Ao sobrevoarem o Lago de Furnas (MG), o Mestre pediu ao médico que lhe desse a mão de Juliana. Naquele instante, pressentia a sombra da morte. Lívido, dispnéico e cianótico, por força de uma embolia pulmonar gordurosa, Rubens Costa Romanelli despedia-se das dores do mundo, para submergir na plenitude da luz de um Sol de Infinita Grandeza reservada "Aos Astros, por caminhos ásperos".

Seu corpo volta ao pó da Terra, no dia 25 de dezembro de 1978, à tarde, ao ser depositado na clausura subterrânea (Jazigo no.2/56), da quadra XXXI do Jardim das Paineiras do Cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte, MG.

Obrigado Mestre Rubens Costa Romanelli, tu continuas uma "luz que brilha e aquece", tu continuas uma flor invisível "que viceja e perfuma".

* derradeira parte de CRÔNICA: "Rubens Costa Romanelli, sábio e virtuoso" de Fidélis Chamone Jorge, In: "Ensaios de Literatura e Filologia" No. 4, Publicações do Departamento de Letras Clássicas da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (1983/1984).

**Aos astros, por caminhos ásperos.

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