CENA DE NATAL


Rubens C. Romanelli

A cena ocorre na noite de Natal. São personagens Súria, Sádana, pais, e Narananda, o filhinho mais velho. Sádana, a mãe, está na sala de visitas ultimando a ornamentação da árvore de Natal, quando, movido de insopitável curiosidade, se aproxima o filhinho.

- Mãezinha, papai Noel existe de verdade?

- Sim, meu filho.

- É ele mesmo quem traz os brinquedos pra gente?

- É sim!

- Então, ele vai trazer brinquedos pra mim?

- Vai, sim, queridinho!

- Por que a gente nunca vê o papai Noel entrar na casa da gente?

- É porque ele costuma chegar tarde, por volta de meia-noite, justamente quando as crianças já estão dormindo. Então, ele entra de mansinho, para não acordá-las e, de pé em pé, vai colocar os brinquedos junto à árvore de Natal.

- E se a gente estiver acordado, na hora dele chegar?... Ele se zanga com a gente?

- Claro que não!

- Então, eu não vou dormir, até que ele chegue... Eu quero ver o papai Noel!

- Meu filho, são muitos os papais Noel, embora você acredite que seja um só. Cada lar recebe a visita de seu papai Noel. Você não precisa ficar acordado até tarde, à espera do papai Noel de nosso lar, porque ele já chegou!

- É verdade?! Mas, então, por que eu não vi ele entrar? Onde está ele? Ele tem que ficar escondido até meia-noite?

- Não se espante, nem se surpreenda, filhinho. Seu papai Noel já estava aqui, quando comecei a arrumação da árvore de Natal e apenas esperava que eu a terminasse, para trazer os presentes.

- Então ele já pode vir?

- Espere aqui, vou ver se é hora de ele vir para a sala.

Sádana corre então até a biblioteca e avisa Súria de que, em face da inesperada curiosidade da criança, vai ser preciso improvisar uma encenação. E, fechando a porta atrás de si, volta para junto do filho, dizendo-lhe, carinhosamente:

- Meu filho, papai Noel virá agora mesmo. Esperemo-lo aqui.

Enquanto papai Noel não chega, Sádana dá os últimos retoques à árvore. Narananda, ardendo de curiosidade, mantém fixos os olhos na direção da biblioteca, esperando que se abra a porta e dela surja a figura de papai Noel. Após alguns minutos de ansiosa expectativa, abre-se a porta e aparece um velhinho de vasta cabeleira, grande bigode, longa barba, gorro e roupas vermelhas e botas pretas. Ele entra delicadamente, carregando às costas um saco de embrulhos, tal como nas ilustrações do Natal, e, após tomar levemente, com a mão direita sob o queixo, o rostinho da criança, beija-lhe as faces, avança em direção à árvore e ali depõe o saco, para dele retirar, um a um, os presentes. Depois de espalhá-los ao pé da árvore, senta-se a uma cadeira e, com a voz grave e pausada, mas modulada de ternura, volta-se para a criança, que o examina curiosamente, da cabeça aos pés, e diz-lhe:

- Venha cá, meu filho. Sente-se aqui, ao meu colo, que eu quero contar-lhe uma pequena história, a história de seu papai Noel.

Então a criança, a princípio hesitante, mas, depois, encorajada pela mãe, encaminha-se firmemente para o velhinho, que, sorridente e carinhoso, a coloca sobre os joelhos, perguntando-lhe:

- Você sabe quem sou?

- Sei, sim. Você é o papai Noel!...

- Acertou! Mas, agora, você vai ficar sabendo que o seu papai Noel não é, como você imagina, o mesmo que vai levar brinquedos aos filhos dos vizinhos.

Depois de afagar a cabeça e o rosto da criança, que ainda o olha com uma expressão de curiosidade, diz-lhe:

- Tire-me o gorro...

- ............................................................................

- Muito bem! Agora, puxe-me a cabeleira para cima...

- ............................................................................

- Assim!... Arranque-me, agora, a barba e o bigode.

- Ah!... é você, paizinho! Gritou a criança, numa explosão de alegria, abraçando-se ao pai, que então retomava sua voz natural.

- Bem, meu filho, agora que você já sabe quem é o seu papai Noel, vá até a árvore para apanhar o seu presente. É um desses pacotes que estão no chão, ao redor da árvore.

- Qual deles?

- Sua mãe lhe mostrará.

- Não! Não é necessário, interveio Sádana. Cada pacote traz o nome do destinatário. Procure, pois, você mesmo o pacote que traz o seu nome. Você já sabe ler e não terá, por isso, dificuldade em achá-lo...

- Espere... Ah! Achei!... Que é isto, mãezinha?

- Abra e você verá!

- Abre pra mim!

- Não, meu filho. É você mesmo quem deve abri-lo. Aprenda a servir-se de suas próprias mãos!

- Então me empresta a tesourinha, pra eu cortar este barbante... Posso rasgar o papel?

- Claro que sim! Agora, puxe a tampa para abrir a caixa. Assim!...

- Chiii! Quanta chapinha furada! Quantas rodinhas e parafusos! Pra que serve isso?

- É para você armar. Com essas peças, você poderá construir seus próprios brinquedos! Não é mais interessante?

- Mas, eu não sei!

- Não importa! Seu pai armará para você o primeiro. Os outros você mesmo armará sozinho, de acordo com os desenhos contidos no interior da caixa.

- Então, paizinho, arma pra mim!

- Sim, meu filho, eu armarei. Mas vamos deixar isso para amanhã, porque já passa da hora de você se deitar.

- Ah! não, paizinho, eu não estou com sono! Arma ao menos um pra mim!

- Bem, neste caso, sentemo-nos no tapete e tentemos armar um dos brinquedos. Veja, aqui estão os desenhos. Examine-os e escolha o brinquedo de seu agrado.

- Eu quero este moinho!

E enquanto o pai vai unindo as peças, parafusando-as uma às outras, o filhinho, algo ausente pelas reflexões em que se absorvera, indaga:

- Paizinho, então o Zico não vai ganhar brinquedo?

- Zico! Quem é Zico?

- Súria, interveio Sádana, ele se refere ao seu amiguinho, filho de nossa lavadeira.

- Mas, filhinho, continua o pai, porque diz você que ele não vai ganhar brinquedo?

- Porque o Zico não tem pai.

- Ah! Compreendo... contudo, ele não ficará sem presente. Creio que a mãezinha não se esqueceu dele.

- Sim, é verdade, não me esqueci. Lembrei-me, filhinho, de que você gostaria de presenteá-lo e, por isso, comprei também para ele um jogo de armar e uma caixinha de bombons. Além disso, comprei também um terninho e um par de sapatos. São aqueles dois embrulhos de papel azul. Amanhã você poderá trazê-lo até junto à árvore e mandar que ele mesmo retire seus presentes.

- Pronto! Aqui está o moinho! Agora, um beijinho na mamãe e outro no papai e... cama! Sua irmãzinha já dorme, há muito tempo.

Depois de se despedirem do filhinho, Sádana e Súria entreolham-se enternecidamente e, abraçando-se, agradecem a Deus o mais lindo dos presentes com que foram agraciados: os filhos de seu amor!

RUBENS COSTA ROMANELLI: "CENA DE NATAL" in: Reflexões de Natal: Segundo o Pensamento de 45 Colaboradores Espíritas. 4a. Edição, 1988, páginas 45-47. Instituto Maria, Departamento Editorial - Juiz de Fora - MG, Brasil.

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