BREVE DIÁLOGO SOBRE EDUCAÇÃO*


Rubens C. Romanelli

(Para a jovem educadora Otaíza Bueno de Oliveira)

- Educação autêntica só se faz com amor! exclamou o professor, numa reunião de pais e mestres.

- Penso, replicou um dos pais, que a criança precisa, de vez em quando, de disciplina física. Umas palmadas, uns puxões de orelha, umas chineladas, até que fazem bem...

- Cada qual dá o que tem. Dê pancadas quem não pode dar amor! Saiba, no entanto, que sem amor não existe obra verdadeiramente educativa.

- Suponho que o senhor não ignora haver crianças que só se educam à força de pancadas...

- A menos que eu não perceba o que o senhor entende por educar, creio que o comportamento do educador, diante do educando, lembra o do jardineiro, diante da flor. Nenhum jardineiro espanca a flor, a pretexto de ser essa a técnica de fazê-la exalar o perfume...

- Perdão, mas diante da criança voluntariosa e insolente, rebelde e recalcitrante, é preciso usar da severidade do domador, antes que da paciência do jardineiro.

- Lembre-se, meu amigo, de que a criança é um ser humano e não uma fera!...

- Ora, não se iluda! Crianças há que, já no primeiro ano de idade, se portam como pequenas feras.

- Talvez. Mas, isso não significa que também nós devamos ser feras! As deficiências da criança jamais devem servir de pretexto para justificar as deficiências do adulto. Ao demais, o mal não se corrige com o mal.

- Nesse caso, como devo proceder para educar meus filhos? Porventura devo permitir que façam tudo quanto queiram?

- A solução não consiste numa questão de dever, mas de compreender. Comece por educar-se e saberá como educar. Pretender que as dificuldades de educar residam no educando, antes que no educador, é cometer uma petição de princípio.

- Mas, então, o senhor não leva em conta os métodos? Não poderia dar-se o caso de as dificuldades decorrerem também deles?

- Já disse que só se educa com amor e amor não consiste em nenhuma espécie de método. Todo método é um meio e o amor é exatamente ausência de meios, porque é comunhão direta com a realidade que se oculta atrás das aparências. É força que se expande, criadora, ante os apelos que nos chegam de todas as fontes da vida!

- Sinceramente, não entendi! Acaso, quer o senhor dizer que a educação prescinde de meios?

- Não, não é precisamente isso! Quero apenas dizer que, em educação, os meios mais adequados à solução de cada problema não preexistem aos problemas, como fórmulas prontas para serem usadas, tão logo seja necessário. Se há realmente amor, não há que preocupar-se demasiado com os métodos, porque o amor saberá criá-los, originais e perfeitos, mal surjam os problemas. Eis porque educação legítima só o é a que se funda na força criativa e libertadora do amor.

- Mas, com isso, o senhor acaba por reduzir a educação a um processo de improvisação!

- Em essência, é isso mesmo! Se quer a prova, atente para o fato de que o que há de mais belo e autêntico em matéria de educação não resultou de nenhum planejamento prévio, nem tão pouco de nenhuma elaboração mental. Surgiu espontâneamente da alma do educador, como da flor o perfume.

- Não sou um espírito misoneísta, mas não compreendo por que se há de apelar sempre para soluções novas, se nem sempre são novos os problemas. Não se poderiam adotar, para problemas idênticos, soluções idênticas?

- O raciocínio é válido para as ciências, não para a educação. Em primeiro lugar, importa romper com o espírito de rotina, que nada cria, mas, antes, cristaliza, embrutece, esteriliza. Em segundo lugar, é preciso compreender que, em educação, nem sempre problemas idênticos (havê-los-á?) comportam soluções idênticas. É sabido que, diante dos mesmos estímulos, cada qual reage diferentemente. Não só de indivíduo para indivíduo, mas até no mesmo indivíduo, podem variar infinitamente as reações, segundo variem as disposições físicas e psíquicas.

- Suas considerações me induzem a pensar que a educação não é tarefa para qualquer um...

- Realmente, não é, como não o é a criação artística. A obra educativa é fruto de uma aguda percepção da realidade e, como tal, requer sensibilidade, capacidade de sintonizar-se com a alma do educando, vale dizer, capacidade de amá-lo, de compreendê-lo.

- O senhor, então, admite que a educação seja antes uma arte que uma ciência?

- Sim, certamente, e a mais nobre, delicada e espiritual de todas as artes.

- Gostaria, se não fosse molestá-lo, que justificasse o seu ponto de vista.

- Explico-me. Se, na pintura ou na escultura, na poesia ou na música, o material das criações estéticas, como a tinta ou o mármore, a palavra ou o som, funciona como elemento passivo e amorfo, que o artista maneja ao sabor de seus caprichos ou sob os impulsos de sua imaginação criadora, em educação, ao contrário, o material é ativo e operante e, não raro, indócil e rebelde, porque dotado de individualidade, de vontade própria. Penetrar nesse dinamismo interior, que é a alma do educando, para acordar-lhe as energias criadoras, sem atentar contra o seu próprio modo de ser, é, com efeito, tarefa que exige sensibilidade muito mais apurada do que pintar um quadro ou esculpir uma estátua, escrever um poema ou compor uma música.

- Parece-me razoável tudo o que o senhor diz. Todavia, isso está em flagrante desacordo com a opinião geralmente aceita de que o educador é um modelador de caracteres, um plasmador de consciências!...

- Por mais sedutora que se nos afigure essa idéia, convém recordar que o educando não é uma substância plástica que o educador deva modelar, segundo um molde convencional, que bem pode ser o seu, ou o imposto pelo sistema político dominante, ou ainda o recomendado pelos modernos tratados de etiqueta social. A educação, antes de ser um problema de forma, é um problema de substância.

- Por que não de forma, se é tão comum o emprego da palavra formação como sinônimo de educação?

- Educação, como formação, não passa muitas vêzes de instrução, quando não de deformação. Em seu mais profundo significado, a educação não se reduz a uma questão de formar (dar forma), ou informar (introduzir na forma), ou conformar (ajustar a uma forma), ou reformar (refazer a forma), ou transformar (passar de uma a outra forma), mas, se me permite o neologismo, a uma questão de eformar (fazer sair da forma), porque educar é libertar da escravidão das formas, é revelar o conteúdo íntimo da vida, descobrir a realidade subjacente em nós, atualizar, enfim, as infinitas potencialidades do ser! Ora, isso só pode ser obra de amor, porque só no clima do amor é possível fazer desabrochar, na alma do educando, a flor da consciência eterna!

* MUNDO ESPÍRITA: página 2, Curitiba, PR, 30/11/1966.